A HISTÓRIA FAMILIAR


Ao se analisar o conjunto das 18 entrevistas verificamos que a maioria das mulheres é originária de Trindade, apenas uma é da praia do Sono distante meia hora de barco a motor. A descrição do modo de vida familiar está presente nas falas em vários momentos das entrevistas, a obediência aos costumes reproduzia-se nos ensinamentos aos filhos.

-E eu trabalhava com a minha mãe, eu trabalhava na roça com meu pai, eu ajudava meu pai na roça. Quando era tempo de fazer farinhada pra vender, eu tava rente com meu pai e minha mãe. Eu nunca respondi meu pai nunca tomei um tapazinho assim do meu pai com a minha mãe, nunca tomei. Porque meu pai dizia assim aquele tempo passado, os pai era enérgicos, dizia assim oh: hoje vai vir uma visita aqui em casa e avisava, porque ele tinha muito colega, muito muito muito, principalmente em Paraty. Ele fazia canoada de lenha pra vender em Paraty e eu tava rente no remo da canoa com ele remando. Junto com ele na canoa levando lenha pra vender em Paraty. Então ele disse: hoje aqui vem uma visita se vocês chegarem na porta e rir, eu peço licença tiro a correia. E quem é que ri quando chegasse visita lá em casa, não ninguém ia rir . Quando eu era solteira eu ria tanto tanto tanto mas eu ria tinha vontade de rir né. Então as vezes os outros até podia cismar que era caçoada, mas não era, eu ria, eu era muito risonha e todo mundo gostava de mim quando eu era solteira.
- Porque ela é um bocado alegre. Ela ri com a gente, ela não se despreza da gente. Então eu fui uma menina legal sabe, tanto pra minha família como pros estranhos né, nunca tive nada que ninguém dizer de mim eu bedecia a igreja desde o meu nascimento.

Transparecendo uma vida sacrificada, essas mulheres contam uma história de luta contínua para a sobrevivência.

- Aí eu me casei. As minhas filhas se criaram todas as três comigo. O jeito que a minha mãe me criou eu criei as minhas filhas. Eu coloquei uma pra lavar roupa, eu coloquei a outra pra limpar a casa e coloquei a outra pra lavar louça e eu fazia comida, lá em casa era assim, no tempo que eu me casei eu fazia isso com as minhas filhas, sabe. Então foram tudo obedientes. Então tem um ditado que diz o que é bom já nasce feito, não é? A senhora sabe desse ditado. A minha mãe costurava né, cortava calça do papai que era o marido dela. Então um dia eu disse assim , mamãe eu quero aprender costurar porque um dia eu vou casar e não sei fazer nada. Aí ela foi pegou um jornal botou em cima da mesa, botou uma calça do papai, e botou em cima daquele jornal e cortou, aquele molde né aquele molde de jornal, ali eu botei aquele jornal numa calça do papai num pano e cortei e ficou boa. E aí eu comecei a costurar, costurar que costuro até hoje. Nunca tive máquina que nunca quis dever ninguém, nunca quis dever a ninguém que eu sei que uma máquina é caro e eu não tinha dinheiro pra pagar. Agora se eu quisesse, eu tinha dinheiro pra pagar a prestação né. Que agente recebe essa michariazinha dava né . Que eu não gosto de dever nada a ninguém, não eu não gosto, mas parece se agora eu tiver uma máquina eu não sei costurar na máquina mais, porque eu já acostumei na mão.

A ausência da mãe relatada nas falas é um dado importante, uma desestruturação familiar é percebida nessa situação.
-. Minha mãe morreu fiquei com um ano de idade. Não alcancei minha mãe. Eu fiquei e me criei na casa dos outros, né.. Quando meninazinha fui pra Pinciguaba. Lá que me formei , me aparei moça, lá. Trabalhando em casa de família, lá. Depois conforme a idade eu me recolhi pra casa. Meu pai, meus irmãos. O mais velho casou aqui e foi embora pra Santos. Três irmãos. Aí fiquei com dois irmãos que trabalhavam em Santos. Lá morreu um, lá mesmo. Esse é morto. Irmão vivo tem só l. Aí casei e dobrou o trabalho a mesma coisa. Eu tive 9 filhos.

Anteriormente a praia do Sono era mais perto, cerca de 1 hora de caminhada. A construção de um condomínio fechado a partir da década de 70 (condomínio de Laranjeiras) impediu a passagem natural entre os dois locais.